🐒 Fomos assaltadas — e o que ele nos diria se fosse capaz
Há alguns meses, fui fazer uma trilha no RJ com minhas amigas. Uma delas me ligou logo cedo: “Ju, estou fazendo um sanduíche de atum, quer que eu leve um pra você? Vou levar maçã também.” Claro que aceitei e achei muito gentil da parte dela.
Chegando lá, vi que uma das minhas amigas tinha levado o lanche em um saco plástico, e um dos rapazes que trabalhavam na entrada disse: “Olha, o macaco vai querer seu lanche!”
A gente riu e concordou que ele poderia até querer, mas não teria. Afinal, já sabemos que não devemos alimentar animais selvagens.
Logo no início da trilha, uma das minhas amigas sentiu fome e começou a desembalar o sanduíche. Mas sabe quando o seu cachorro te escuta lá da sala só de ouvir o barulho da embalagem? É claro que com o macaco não seria diferente. Lá estava ele nos encarando…
Preciso dizer que nunca tive muito contato com macacos-prego. Em geral, vejo mais saguis por aí. Mas eu tenho a síndrome da Branca de Neve e acredito piamente ser amiga dos animais. Então disse para as minhas amigas: “Guardem o lanche pra ele não ficar enchendo o saco e venham comigo. Ele não vai fazer nada com a gente.”
Continuamos a trilha normalmente, e algumas árvores mais à frente… outro macaco. Ou melhor, o mesmo de antes? Sim, provavelmente ele veio acompanhando a gente! Dessa vez, desceu da árvore e foi direto na sacola plástica. (Preciso dizer a gritaria que foi? Hahaha!) Nosso lanche caiu no chão, quer dizer, o lanche do macaco, passamos o resto da trilha com fome.
Não é que eu estivesse subestimando a capacidade cognitiva dele… Eu só realmente não acreditava que ele faria isso com a gente…
Como eu disse, eu não estava subestimando o macaco. A comunicação animal é bem complexa e estudantes de Linguística sabem disso desde o primeiro período (e eu nem estou falando só de primatas… Vocês conhecem a dança das abelhas para indicar a localização de alimentos?).
Além de posturas corporais e expressões faciais, os macacos-prego têm vocalizações específicas: eles emitem sons para alertar os outros sobre a presença de predadores, e essas vocalizações variam dependendo do tipo de predador: se é por exemplo uma ave de rapina eles emitem um som; se é uma serpente eles emitem um outro som bem diferente.
Lembro de termos brincado sobre o fato de que tamanha a inteligência e sagacidade, só faltava ele falar…
Mas por que será mesmo que ele não fala?
Por muito tempo acreditou-se que essa incapacidade tinha relação com restrições no trato vocal do animal: a laringe dos macacos estava posicionada em um local muito alto, o que impedia a formação de sons necessários para a fala. Na verdade, acho que essa é a ideia que ainda permeia a cabeça das pessoas fora da área.
Mas se o problema fosse a impossibilidade de articular sons, eles poderiam utilizar outra forma de expressão, certo? Já que línguas de sinais não dependem de som algum…
E foi o que tentaram fazer! Diversos pesquisadores já tentaram ensinar sinais aos primatas. Os resultados são de fato surpreendentes:
A chimpanzé Washoe, em 1965, aprendeu cerca de 350 sinais e até conseguia combinar vários deles.
O chimpanzé Nim Chimsky, que aprendeu 120 sinais e conseguiu fazer cerca de 120 mil combinações.
Tem diversos outros exemplos de pesquisa aqui.
Ok, mas… temos limites?
Ninguém nega os resultados impressionantes, mas precisamos nos lembrar que:
Esses animais foram exaustivamente ensinados, o que é muito diferente do que acontece com bebês humanos, que adquirem uma língua de forma espontânea e sem necessidade de instrução.
O uso de sinais por esses animais tem uma intenção comunicativa, mas será que é necessariamente linguístico? Uma das propriedades da linguagem humana é a do deslocamento: podemos falar sobre o passado, sobre o futuro, podemos imaginar e falar sobre situações hipotéticas. Quando um chimpanzé aprende esses sinais, há comunicação e intenção, mas não parece haver mais nada além disso. Eles não se referem ao que não está presente.
Hauser, Chomsky e Fitch (2002) propõem que várias espécies compartilham conosco algumas habilidades cognitivas, como por exemplo: percepção, memória e intenção comunicativa. Esse conjunto de habilidades faria parte do que é chamado Faculdade da Linguagem no Sentido Amplo (FLA).
Mas apenas os seres humanos seriam capazes de gerar infinitas combinações a partir de elementos finitos, pois apenas nós seríamos dotados de uma Faculdade da Linguagem no Sentido Estrito (FLN): um mecanismo que nos permite criar um número infinito de frases e ideias, inclusive encaixando uma na outra, de forma recursiva…
[ O macaco [ que pegou o lanche da amiga [ que fez o sanduíche [ que gritou por socorro…]]]
E o que ele nos diria?
Provavelmente que o sanduíche de atum estava delicioso.
Um beijo especial para Clarinha e Sabrina,
Julinguistica




Muito bom!