Como transformar um artigo científico em post de instagram?
Os perigos de um mundo acelerado e da "tradução" de complexidades
Começando esta newsletter com um brevíssimo pedido de desculpas por ter ficado duas semanas sem enviar nada para vocês! Acho que não preciso ficar me explicando tanto, vocês devem me seguir nas redes sociais e sabem que estou morando em um outro estado por motivos familiares e me desdobrando para terminar uma tese, escrever artigos, dar aulas de francês e alimentar as redes sociais… Enfim, acho que o texto de hoje vai compensar vocês!
Há um tempinho atrás fui convidada pela Semana de Letras da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro para dar uma oficina sobre divulgação científica em Linguística, não poderia ter ficado mais feliz! Infelizmente o trânsito não me deixou chegar, mas a reflexão continuou comigo e deixei o material guardado para uma oportunidade futura (posso inclusive gravar para vocês, se tiverem interesse, me avisem nos comentários!)
Não é tarefa fácil falar sobre Linguística nas redes, e isso para mim sempre esteve relacionado a dois fatos:
1 - Não posso ser formal demais ou utilizar a linguagem específica da área, sejamos sinceros, o jargão acadêmico afasta o público, ninguém vai querer assistir ou prestar atenção.
2 - Não posso ser informal demais e simplificar algo que não é simplificável. A fronteira entre tornar algo acessível e superficial me parece muito fina.
Acho que nosso grande objetivo como divulgadores científicos é despertar a curiosidade das pessoas, informar a população sobre o que é feito dentro da academia, combater a disseminação de notícias falsas dentro da área e instigar o aprofundamento. Só que o aprofundamento parece ser algo que a grande maioria das pessoas está evitando no momento. As pessoas realmente acreditam que estão se tornando especialistas em determinado assunto apenas porque assistiram a um vídeo no youtube (preciso falar que são até mesmo muitas vezes contra o ensino formal?)
É claro que o problema está, em grande parte, em como as plataformas digitais funcionam e estão nos influenciando: o algoritmo não gosta de pausas ou falas demoradas, ele gosta de rapidez, certezas e frases de impacto, ao contrário da ciência, que por vezes é lenta, cheia de questionamentos, detalhes, releituras e revisões. Parece que estamos mesmo tentando traduzir dois mundos completamente distintos.
Pensando no objetivo e nas problematizações apresentadas, vou tentar passar para vocês de que forma eu tento divulgar a Linguística nas redes:
Penso em quem é meu público-alvo daquela postagem: é a sociedade no geral? São alunos de Letras?
Tento utilizar uma linguagem clara, mas sempre deixando claro a complexidade subjacente e que existem, inclusive, diferentes correntes teóricas. Inclusive, utilizar a própria metalinguagem é interessante, desde que você explique o conceito logo em seguida;
Reflito também sobre a intenção daquela publicação: é informar, é entreter, é divulgar?
Sempre ofereço referências bibliográficas, links para cursos e artigos, encorajando as pessoas a trilharem seu próprio caminho de aprendizagem (autonomia é tudo!) e pela busca de fontes primárias;
Escolho o formato que faça mais sentido, hoje temos muitos disponíveis: reels, carrossel, podcast, substack…
Reflito sobre as minhas próprias publicações anteriores: o que eu não faria, o que deu certo e eu repetiria?
Espero que essas reflexões te ajudem a produzir e consumir conteúdo de forma mais crítica e consciente, não acelerando o entendimento, mas dando espaço para que ele aconteça. Talvez nosso grande desafio seja reaprender a demorar.
Uma lista de referências para você se aprofundar:
PEREIRA, Edina Pires da Silva. O papel da ciência e os caminhos para a divulgação científica na sociedade contemporânea. 2024. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura em Ciências Naturais) — Instituto Federal de Goiás, Goiás, 2024.
SOUZA, J. B. et al. Divulgação científica nas mídias sociais: desafios e oportunidades. SciELO Brasil, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/brjp/a/T3cBsXMkgstsc66sJVP74Mx/?lang=pt.
HOCHSPRUNG, Vitor. Divulgação científica: notas sobre popularização da Linguística na internet e na sala de aula. In: SIBALDO, Marcelo Amorim (org.). Ensino de línguas: propostas e relatos de experiência. São Paulo: Blucher, 2023
Inclusive, fazendo nossa newsletter descobri algo que se chama slow science, então convido vocês a lerem comigo o artigo “Slow Science Manifesto”, é o primeiro quando procuramos esse título no Google!
Beijos e até a próxima,
@julinguistica

